Falta de apoio do PT ao ajuste do governo não é real, diz Paulo Pimenta

Publicado por em 20 de setembro de 2015

DeputadoO deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) acredita que a proposta de impeachment que vem tomando corpo na Câmara dos Deputados vem de um grupo pequeno de parlamentares que, apesar de contar com o apoio de uma parcela da sociedade, tende a ficar isolado em sua aventura golpista. Ele também desconstrói o argumento de que a presidente estaria sem apoio até mesmo no PT.

“Eu não acredito nisso, em todas as reuniões dessa semana se viu o contrário, uma unidade muito grande da Câmara em apoio ao ajuste. É natural querer melhorar as propostas, mas isso não invalida o apoio geral ao projeto, a qualidade do ajuste, compreendido como uma travessia do momento macroeconômico que nós estamos atravessando”, destacou o deputado, líder do governo na Comissão de Orçamento do Congresso Nacional e presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias.

Em entrevista por telefone, Paulo Pimenta também comentou que não é estranho que o pedido na Câmara para obter esclarecimentos sobre como seria um processo de impeachment da presidente tenha sido apresentado pelo Democratas, antigo PFL, filho da Arena, que foi o partido de sustentação do golpe militar.

Ele apontou ainda as fragilidades dos argumentos apresentados na defesa de uma interrupção do mandado da presidente, como no caso da Operação Lava Jato, cujas investigações envolvem políticos da oposição com mandato político, mas não envolvem a própria presidente. “Uma coisa é você ter críticas ao governo, outra coisa é você rasgar a Constituição e aderir a uma tentativa de golpe”, alerta o deputado que está no quarto mandato consecutivo e foi o mais votado do PT-RS nas duas últimas eleições.

Confira a entrevista:

Jornal do Brasil – A oposição iniciou formalmente a tentativa de criar um roteiro para instaurar um processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff. Como está o clima no Congresso em relação a esse processo?

Paulo Pimenta – Eu acho que essa proposta não prospera. Acho que nem no Congresso nem na sociedade existe uma possibilidade de que uma ruptura, que do nosso ponto de vista se constitui num golpe contra a democracia, possa prosperar.

Existe um grupo de parlamentares que apoiam o governo, existe um grupo de parlamentares que têm críticas, que gostariam que as coisas piorassem no governo, e existe um grupo pequeno de parlamentares que nunca aceitaram o resultado da eleição, que fazem um trabalho permanente de pedir satisfação do resultado eleitoral, e que agora se aventura nessa estratégia golpista. E eu acredito que este grupo tende a ficar isolado.

Uma coisa é você ter críticas ao governo, outra coisa é você rasgar a Constituição e aderir a uma tentativa de golpe. Então, eles só terão dentro de parcelas de movimentos que eventualmente tenham restrições e críticas ao governo um apoio, uma solidariedade, para uma aventura como essa.

Jornal do Brasil – O senhor comentou que “não é estranho que o pedido tenha sido apresentado pelo Democratas”. Como você analisa esse movimento, considerando o contexto histórico do país?

Paulo Pimenta – O Democratas, na verdade, é o antigo PFL, que é um filho legítimo da Arena, o partido de sustentação do golpe militar. O próprio Mendonça Filho foi o autor da emenda da reeleição do Fernando Henrique.

Então, para mim, [o pedido de esclarecimento sobre processo de impeachment por parte do Democratas] não é uma surpresa. Acho que é reveladora de um pensamento que historicamente esteve presente na sociedade brasileira, isso já foi em 1954, em 1964, em outras épocas teve o Carlos Lacerda como grande porta-voz, e esse papel hoje é exercido por lideranças da oposição que articulam uma tentativa de golpe.

Jornal do Brasil – A corrupção é um dos argumentos mais usados por esse movimento, ao mesmo tempo que muitos estão envolvidos com suspeitas também de corrupção. Qual a sua opinião sobre esses posicionamentos um tanto contraditórios?

Paulo Pimenta – Absolutamente frágeis. Você não tem por parte da oposição sequer um argumento sólido que possa justificar [o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff]. São realmente esforços que são desenvolvidos para justificar o injustificável, tentar pleitear algo democraticamente conquistado na urna — se você discorda da política econômica, se você não ganhou a eleição. Então, não há sequer um argumento.

Porque num momento se diz “é por causa das ‘pedaladas [fiscais]'”. Tudo bem. Então é esse o debate? Um debate não conclusivo, esse procedimento foi adotado pelo governo anterior, do Fernando Henrique, o procedimento foi adotado por governadores e muitos prefeitos. Então, evidente que isso aí não se sustenta para cassar um presidente.

“Ah, é o fato de que empresas investigadas na Lava Jato doaram para campanhas eleitorais”, quando governadores da oposição receberam dinheiro para campanha dessas mesmas empresas.

Então, não há um argumento que possa ser utilizado de maneira universal. Os argumentos da oposição são frágeis, são absolutamente insuficientes para justificar uma tentativa como essa que está sendo proposta.

Jornal do Brasil – Como você vê o próprio envolvimento do presidente da Casa com suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro?

Paulo Pimenta – É evidente que é uma situação desagradável. Agora, da mesma maneira que nós defendemos o direito do contraditório, a oportunidade de defesa, essa premissa também precisa existir para os demais, não podemos fazer como a oposição faz, que tem um discurso para cada situação.

Claro que para o país é ruim uma situação como essa. Mas ele [Eduardo Cunha] vai ter a oportunidade de apresentar a sua defesa. O Supremo Tribunal Federal vai se manifestar, se acolhe ou não a denúncia do Ministério Público Federal, e a cada fato novo nós vamos ter uma nova posição para poder abordar esse debate. Eu acho que ele também deveria lidar com a mesma conduta como presidente da Casa para não embarcar e não fazer parte de um engodo casuístico promovido pela oposição.

Jornal do Brasil – Eduardo Cunha comentou, sobre possível nova troca no comando da articulação, que o problema não é quem vai ser colocado ou não na articulação entre Planalto e Legislativo, que o problema é um pouco maior, um problema político de “consolidação de base”, mas aproveitou para dizer que o Michel Temer tinha muito mais condição e autoridade para fazer essa articulação. Como você tem analisado esse relacionamento entre o Planalto e o Congresso?

Paulo Pimenta – Eu acho que o Eduardo Cunha fala do ponto de vista de quem já se escalou na oposição, ele perdeu por opção essa oportunidade de comentar o governo como alguém que faça parte da base. Eu acho que o Michel Temer cumpriu um papel importante, naquele momento de ajustes, na aprovação de uma série de temas, mas ele mesmo está sobrecarregado, tem uma opção de tratar de grandes questões mais estratégicas para o país, e é preciso pessoas que se dediquem em tempo integral a essa tarefa.

Então, acho que ajustes na situação política neste momento é muito necessário, alguém que possa fazer essa relação com o Parlamento, isso ajuda muito, é muito importante que a presidenta consiga uma pessoa com essa capacidade, com esse perfil, para poder cumprir essa tarefa.

Jornal do Brasil – Muito tem se falado agora sobre uma falta de apoio até mesmo dos Partido dos Trabalhadores à presidente, em relação por exemplo a esse ajuste proposto. Como você avalia esse debate?

Eu não acredito nisso, em todas as reuniões desta semana se viu o contrário, uma unidade muito grande da Câmara em apoio ao ajuste, e é natural querer melhorar as propostas, mas isso não invalida o apoio geral ao projeto, a qualidade do ajuste, compreendido como uma travessia do momento macroeconômico que nós estamos atravessando.

Eu não encontrei um parlamentar na Câmara ou no Senado que tenha dito algo diferente disso, estivemos com o ministro Levy, com o ministro Nelson Barbosa, uma forte presença de parlamentares da base de governo, praticamente todos eles manifestaram o compromisso de apresentar sugestões, tentar melhorar as propostas, mas com o compromisso maior que é aprovar esse projeto.

Jornal do Brasil – Como tem sido liderar a Comissão de Direitos Humanos nessa Câmara que foi eleita, que é considerada mais conservadora?

Paulo Pimenta – Olha, hoje eu tenho duas tarefas, sou líder do governo na Comissão de Orçamento e sou presidente da Comissão de Direitos Humanos, que são duas tarefas bem distintas e desafiadoras. Eu acho que até temos conseguido fazer este ano que a Comissão de Direitos Humanos volte a ter um protagonismo importante no país no acompanhamento dos principais temas de violação de direitos, que pese que temos vários parlamentares com uma postura mais conservadora, e isso não impediu que nós tocássemos uma necessidade do país, a questão indígena, a questão de violência policial, questões de gênero, todas essas questões estiveram na pauta, estão novamente na pauta.

A comissão neste ano completa 20 anos, uma comissão que foi criada para dar voz e possibilidades a minorias, excluídos da sociedade, uma política de valorização da diversidade, de inclusão, também bastante pautado no exercício da presidenta, e acredito que o resultado até agora está dentro daquilo que eu esperava.

Fonte: Jornal do Brasil



Deixe seu comentário


Publicidade